sou a falta de noção de tempo, e espaço sou a solução dos tolos mas sou também o que te faz lembrar que a tristeza corrói até o ouro que a gemer é mais de dor, que de gozo mas sou também o que tem “louco”
da chama
olhos quentes de água
peito frio de medo
incerto
o que faço ? suponha, proponha
volta minha chama à cor original
dá felicidade aos que me rodeiam
preciso voltar a sorrir
e a falar
de amor
toda vez que escrevo expresso algo que sinto uma coisa boa, meta-físico e físico ao mesmo tempo são alegrias do tempo em lágrimas secas palpitações
eu escrevo pra eternizar o momento e compartilhar uma vez e de novo de novo novo
elevador
quando a porta fechou
vi teus lábios através do vidro
de forma muda, se movimentavam para dizer "eu te amo"
eu ainda estava lá, mas os teus olhos transmutavam tua já saudade
eram lindos, e grandes, e puros, e secos de lágrimas,
transmutavam um sentimento inefável e anônimo.
quando me dei conta,
os meus olhos eram a descrença de tudo ser tão todo.
E meu coração se apaziguou com a ternura de se sentir teu, todo.
Ausência
Eu deixarei que morra em mim
o desejo de amar os teus olhos que são doces
Porque nada te poderei dar
senão a mágoa de me veres eternamente exausto
No entanto a tua presença
é qualquer coisa como a luz e a vida
E eu sinto que em meu gesto
existe o teu gesto e em minha voz a tua voz
Não te quero ter porque em meu ser tudo estaria terminado
Quero só que surjas em mim
como a fé nos desesperados
Para que eu possa levar
uma gota de orvalho
nesta terra amaldiçoada
Que ficou sobre a minha carne
como nódoa do passado
Eu deixarei...
tu irás e encostarás a tua face em outra face
Teus dedos enlaçarão outros dedos
e tu desabrocharás para a madrugada.
Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu,
porque eu fui o grande íntimo da noite.
Porque eu encostei minha face na face da noite
e ouvi a tua fala amorosa.
Porque meus dedos enlaçaram os dedos da névoa
suspensos no espaço.
E eu trouxe até mim a misteriosa essência do teu abandono desordenado.
Eu ficarei só
como os veleiros nos pontos silenciosos.
Mas eu te possuirei como ninguém
porque poderei partir.
E todas as lamentações do mar,
do vento, do céu, das aves, das estrelas
Serão a tua voz presente,
a tua voz ausente,
a tua voz serenizada.
Ternura
Eu te peço perdão por te amar de repente
Embora o meu amor seja uma velha canção nos teus ouvidos
Das horas que passei à sombra dos teus gestos
Bebendo em tua boca o perfume dos sorrisos
Das noites que vivi acalentado
Pela graça indizível dos teus passos eternamente fugindo
Trago a doçura dos que aceitam melancolicamente.
E posso te dizer que o grande afeto que te deixo
Não traz o exaspero das lágrimas nem a fascinação das promessas
Nem as misteriosas palavras dos véus da alma...
É um sossego, uma unção, um transbordamento de carícias
E só te pede que te repouses quieta, muito quieta
E deixes que as mãos cálidas da noite encontrem sem fatalidade o olhar extático da aurora.
Elegia à despedida
ó moça do sorriso de afago!
tuas cores, tu sabes,
são belas demais
tens olhos de verde-inca.
e o teu olhar, tu sabes,
aflora o amor do maior amante
por que és em carne, amada?
por que não és um sentimento
por que não és a própria saudade?
assim eu poderia tê-la pra sempre
por que não são, nossas vidas, uma?
por que mostrastes teu coração de vidro?
não sabes que,
moça do sorriso de afago,
teu carinho é tão grande
e as tuas mãos são quentes;
quisera fenecer sob tuas palmas
a falta do teu peito será meu pranto
tão tácito e despreparado,
despido de verdades, despido de vontades
desbragado, subsistido
como meus lábios serão, sem tua pele, amada?
que outro amor me dará abraços como os teus,
como subirei ao palco, ao altar, ao lábaro?
sem ti, serei uma escassez de versos
e meu amor lânguido
como, amada, padecerei em paz
sem os relevos que o tempo há de vos dar ?
Provençal ao Beijo (teu beijo)
não, não negue meus beijos
perceba que meus lábios querem gravá-la
decorar teu relevo, tua pele
tende piedade da minha carne
que quer tua carne.
não sabes a tragédia que trouxestes
não sabes como te quero, não sabes ?
como hei de encarar a Lua sem tristeza?
por que és tão súbita ?
confesse que és um anjo
confesse que és o próprio amor!
tende piedade de minh'alma
e torne nossas vidas numa
permita-me beijá-la de olhos abertos,
quero tentar, em vão, permanecer tua imagem
por Céus, já não fosse pesado o fardo de não tê-la
não quero dormir, não fecharei meus olhos!
tu és o festejar
as luzes,
os sons,
as cores.
tua alma é o mais belo soneto
que não pode ser cantado
senão pela acústica de meus lábios
carnais
mas teu corpo sim,
pode ser beijado
por que te vais rápida como uma trova, lirismo meu ?
não entendes, não entendes
quero que fiques,
seja parte de minha eterna prosa
seja minha namorada,
amante, esposa,
sejas meu testamento de felicidade
grandes barbas
embebi minhas barbas em vinho
as deixei crescer
levantei um referendo,
cidadão de tua selva
arranharei teus risos
e molhando tuas vestes
encerrarei tua relva
tu vais alem da fresta, tempo futuro
viestes em vias várias
fizestes frevo em meu peito
feitiços fizestes, formosa
e aos poucos me faço, eu mesmo
o eu que manuseia, meus fios
sejais meu palco,
sejais meu assunto
sejais meu mundo